Desocupados que passaram por aqui

domingo, maio 15, 2011

Infestação zumbi


Como vocês devem se lembrar, eu não sou um grande fissurado por terror.

Ou, melhor dizendo, eu não consigo nem assistir um filme de terror inteiro sem ter que desviar o olhar alguma vez.

Ta... Sou um cagão... Isso não é novidade.

Mas no meio de tantos monstros, aberrações, aparições e assombrações eu consegui encontrar um subgênero que eu agüento acompanhar, e que até consegue me cativar.

E pelo o que eu consigo perceber, esse subgênero está sofrendo um verdadeiro BOOM nesses últimos tempos, se tornando cada vez mais popular.

E a não ser que você tenha algum bloqueio mental que te impeça de ler o título do texto, você já sabe que o assunto de hoje será zumbis, mortos-vivos, ghouls, walkers, e todas essas coisas boas da vida!




Uma coisa que me fascina é a aceitação que os zumbis têm no universo pop hoje em dia. Claro, vampiros são legais, mas muitas vezes sua mitologia é complicada e afasta o grande público. Múmias são bacanas, mas o tempo de explorar o Egito já passou; e você pode até achar que monstros do pântano são bem legais, mas eles não são tão conhecidos.

Já os mortos-vivos são uma escolha muito mais fácil para uma história. Eles não precisam de um background vasto, nem precisam de motivação. É só você colocar um bando de seres apodrecidos perseguindo um punhado de pessoas apavoradas que você tem tudo pra ter um filme de sucesso. DEUSES! Você pode até botar os zumbis correndo que mesmo que os fãs extremistas reclamem, eles vão assistir e vão gostar.

Mas por que tamanha aceitação por esse tipo de monstro? Ouso dizer que filmes de zumbis conseguem ser um dos tipos mais violentos, sangrentos e coisa-e-tal que existe, e filme extremamente “gore”, apesar de atrair fãs, não conseguem chegar ao nível de “superstars” que nossos amigos apodrecidos conseguiram chegar.

Eu culpo três fatores (meio interligados) que permeiam a psique de quase toda pessoa nesse mundinho.

O primeiro de todos, eu vou chamar grosseiramente de “liberdade”.


É quase um fato científico que as pessoas acham seu dia-a-dia algo extremamente monótono. Todo dia vemos pessoas reclamando de suas rotinas: acordar cedo, pegar trânsito, trabalhar, dormir mal... Muitos anseiam por algo - qualquer coisa – que venha e quebre a mesmice.

E aí que entram os zumbis. Diferente de qualquer outro tipo de monstro (exceto os aliens), o que os zumbis causam é o completo e total caos. Se um vampiro ataca, só quem é vitima dele que vai ficar mal. Um assassino está a solta? Se esconda que tudo vai ficar bem...

Mas não com zumbis! Os zumbis não cansam, eles se proliferam rapidamente, e em pouco tempo a sociedade já entrou em colapso e as pessoas são dominadas pelo medo.

Diante tamanho caos os sobreviventes se vêem num mundo anárquico, governado (eu sei que usar “anarquia” e “governo” em uma mesma frase é estranho, mas me faltou termos) pela pura lei da sobrevivência.

E isso que atrai as pessoas: a libertação das “amarras da sociedade”. Apesar de toda a destruição, toda paranóia presente em um mundo dominado pelos mortos, todos já sonharam alguma vez em viver um mundo onde o mundo não lhe cobra nada.

Chega de trabalho! Nada mais de ser obrigado a atender aos “contratos sociais” que lhe eram impostos! Você só faria o que você quisesse! Ou melhor, só faria o que você PRECISASSE!


Vou até citar o texto da contra capa de “The Walking Dead” (que eu comprei uns dias atrás, e sobre o qual eu acho que farei diversas referências):
“Quantas horas há em um dia quando você não passa metade dele na frente da TV? Quando foi a última vez que algum de nós REALMENTE trabalhou por algo que queríamos? Quanto tempo faz que realmente PRECISÁVAMOS de algo que QUERÍAMOS?
Em um mundo dominado pelos mortos, somos forçados a finalmente começar a viver.”

E isso que faz com que as pessoas se identifiquem com as histórias de mortos-vivos. Quando cada dia – ou cada minuto – pode ser realmente o último da sua vida, você passa a rever suas prioridades. Com isso, sempre somos forçados a viver ao máximo. E isso sem a pressão da “monotonia” que todos sempre reclamam.

Daí vem a “liberdade”. Com o caos instaurado, você só se preocupa com o que é importante. Não há mais necessidade de ir trabalhar todos os dias num escritoriozinho apertado e fedido, só para que seu pai não ache que você é uma vergonha por passar o dia inteiro “vagabundeando”. Pra quê continuar fingindo gentileza para aquele cara que você detesta só por que você é obrigado a vê-lo todo dia?

Com cada um lutando para salvar o próprio umbigo, todos estarão ocupados demais para julgar uns aos outros.

O segundo, e não menos importante, é o que irei chamar, por simplicidade, de “consciência livre”.

Esse importante ponto foi levantado por meu amigo Victor (o Coelho, do desaparecido “Espiral Destrutiva”) em um dos nossos longos e demorados debates sobre os zumbis (praticamente todas nossas conversas convergem para esse assunto). Veja se você consegue seguir essa linha de raciocínio:


Pense em um ícone dos filmes/séries de ação. Por exemplo o incansável Jack Bauer, ou o letal Rambo. Eles são venerados. Eles salvam seu país/mundo todos os dias. Eles são durões. Mas se você for parar pra pensar, você gostaria de ser como eles?

Digo, você dormiria bem a noite sabendo que você matou, ou que terá que matar dezenas de pessoas? Você ficaria de consciência limpa sabendo o tanto de sangue que você tem em mãos?

Por mais que as pessoas respeitem e idolatrem um “super soldado”, elas não se identificam com ele, nem pensam “Ah. Eu queria ser que nem ele...”

Mas em uma infestação zumbi, o alvo de sua arma seria algo que tecnicamente está morto. Há até a possibilidade de se estar fazendo um favor ao zumbi ao “injetar” uma bala em seu cérebro. É muito mais fácil se identificar com alguém como o Rick Grimes (herói do “The Walking Dead”), cujo objetivo é sobreviver e proteger sua família e – pelo menos na série (no HQ o buraco é mais embaixo) – a única coisa que ele tem que matar são os que já estão mortos, do que se identificar com alguém que precisa invadir um prédio cheio de russos e matar a todos.

Por mais que todos tenham um psicopata dentro de si apenas esperando um momento de emergir, também possuímos consciência, que não nos permite matar (com facilidade) nossos semelhantes. Mas um zumbi – um monstro – não é protegido pela nossa bondade.

Uma coisa que comprova isso é Left 4 Dead (um jogo, quem não sabe...).


Quando um jogo nos permite matar violentamente outro ser humano, os “protetores dos bons costumes” têm ataques cardíacos, e fazem tudo ao seu alcance para impedir que esse tipo de material chegue aos jovens.
Mas no caso do Left 4 Dead, é possível usar uma serra elétrica (que o termo correto seria “motosserra”) e desmembrar zumbis a torto e direito, ou dar tiros na cabeça de uma zumbi chorona. E eu nunca vi ninguém reclamando desse tipo de jogo...

Tudo bem matar algo, desde que não seja humano...

O terceiro, último, e curioso fato é a crítica social.

Isso era mais aparente em filmes antigos, como os do “pai-dos-mortos-vivos”, George Romero, com críticas ao modo de vida consumista e essas coisas, mas eu ainda vejo isso em filmes mais recentes.


Talvez não seja a intenção do filme ser critico, e talvez eu esteja apenas vendo coisas onde elas não existem. Mas eu sempre achei que toda história de zumbis tem em seu núcleo uma crítica social, principalmente pelo modo como as histórias se desenvolvem.

Já comentei sobre o caos que procede a uma infestação de mortos-vivos. E esse caos todo é sempre causado pelo pânico das pessoas, pelo “é cada um por si” que eu já comentei ser um dos atrativos dessas histórias.

Não consigo parar de pensar que esse caos todo é só uma extrapolação da reação das pessoas com algo que elas não estavam esperando.

Lembra no filme do Batman (o “Dark Knight”) que o Coringa reclama das pessoas que planejam? Sempre acho que filmes de zumbis possuem alfinetadas a esse tipo de pessoas.

Por que, veja bem, esse tipo de gente se apega aos seus “planos”, ao normal. Elas podem reclamar de seu cotidiano, mas elas fazem questão de se apegar às “constantes” da vida. Por mais que odeiem a rotina, as pessoas necessitam dela para se sentirem sãs. Sempre que algo acontece que quebra essa rotina, o “plano”, as pessoas ficam desesperadas e confusas.

E pessoas desesperadas e confusas levam à quebra das frágeis leis que regem nossa sociedade.

Tudo não passa de uma crítica ao fato de que as pessoas não possuem a capacidade de viver em um mundo sem regras, sem algo ou alguém para dar as direções, sem um elemento constante no seu dia-a-dia.

Por mais que as pessoas anseiem por algo que quebre sua rotina, elas ficam perdidas a partir do momento que isso acontece...

Sim... Estou viajando demais no assunto...

Então resolvo parar por agora.


Provavelmente semana que vem eu volto com mais um texto sobre zumbis.


Ou não, se eu conseguir pensar em outro tema.



Até lá...
Tenham um bom dia!

4 comentários:

  1. First!

    Ótimo texto,Kaum

    Entendo seu medo por filmes de terror,eu mesmo nunca consegui assistir nunhum até o final

    Só não entendi o q voçê quer dizer com a crítica social dos fimes de zumis

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  2. Uma coisa que um crítico chamado MovieBob apontou (e eu concordo plenamente) é que a grande vantagem dos zumbis no cinema e nos games é que todas as pessoas -ou todos os nerds, pelo menos- sempre quiseram sair matando todo o mundo por causa do mal que as pessoas nos causaram.

    Mas é claro que a maior parte de nós é sã o bastante para não fazer isso (graças a deus) e é aí que entram os zumbis.

    Eles são parecidos com humanos, eles são uma ameaça aos vivos e eles não tem consciência o bastante para nós realmente causarmos dor à eles.

    Então nós podemos extravasar o nosso ódio patológico sem culpa nenhuma!

    Qual é, quem nunca quis explodir a cabeça daquele Bully que ficava implicando com você na escola com uma doze de barril duplo, depois crucifica-lo na parte mais alta da escola para faze-lo de exemplo!?

    Só eu? Ah...tá...

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  3. Apesar de não parecer, o ponto central dos filmes de zumbi é a crítica social. Isso pois quem iniciou tal gênero como conhecemos hoje foi George Romero, e o mesmo sempre introduzia certa crítica a sociedade em seus filmes. Infelizmente, o diretor teve suas mensagens muito desvalorizadas, pois grande parte de seu currículo era composto por filmes de horror, e há um certo preconceito quanto a este tipo de cinema.

    Não sou um grande fã de filmes de zumbi, apesar de, certamente, haver muitas boas obras associadas a estes seres. Acho que há algumas películas, principalmente nos tempos atuais, que deixam o lado crítico em segundo plano, dedicando-se apenas a violência extrema e apelativa.

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  4. Zumbis são uma ótima "válvula de escape".
    Ao invés de focar seu ódio no seu vizinho, foque-o em seres inumanos que não possuem consciência.

    Quanto às críticas sociais, eu sei que em muitos casos é forçar a barra querer achar crítica nos filmes. Mas no começo, zumbis eram uma forma de critica (como o Jack disse)
    Seja crítica ao consumismo (monstros sem discernimento cujo único propósito é comer? ou seriam pessoas que se preocupam mais em ter do que ser, e gastam seu tempo e dinheiro em itens fúteis?) ou à coisas mais disfarçadas, sempre vai ter uma critica...

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