Desocupados que passaram por aqui

sábado, abril 23, 2011

Documentando a desgraça alheia


Pode ser legal escrever sobre as coisas que eu gosto. Falar de games, filmes, e essas coisas boas que me colocam um sorrisão no rosto.

Mas convenhamos que é muito mais legal falar de algo que eu não gosto.

Não sei se é por que isso me possibilita descarregar a raiva, ou se é por que as reclamações são o tipo de texto que aparecem mais discussão.

Mas os textos-reclamação são os mais fáceis de escrever, e os mais divertidos de ler (ou não? Opinem). Então decidi escrever sobre um tema que desperta muito a minha ira.

É sério: essas coisas me irritam tão profundamente que me deixam até de estômago embrulhado.
Falemos de jornalismo então. Mas não qualquer jornalismo, mas sim o sensacionalista.

Me dá IBAGENS!



Jornalismo já é uma profissão incompreendida. Muitas pessoas não levam eles a sério, e decidir que não é mais necessário ter formação acadêmica pra exercer o cargo não ajuda muito na construção da imagem deles.

Existem muitos jornalistas que eu até respeito (não me perguntem... eu não saberia citar), e outros que eu pelo menos aturo. Mas a grande maioria eu não suporto, especialmente pelo tipo de notícias que eles cobrem.

O exemplo mais comum são os desastres e afins.

Acontece uma enchente, um maluco entra atirando numa escola, espancam um coitado numa fila de cinema, não importa o motivo o resultado é sempre igual. 15 minutos depois do ocorrido (OU O SEU DINHEIRO DE VOLTA!) a imprensa já vai pra cima como um bando de abutres na carniça.

E aí chega o momento fatídico de entrevistar as vítimas/familiares:

“E então, como você ta se sentido?”


Não! Sério? Eles têm a CARA DE PAU de chegar pra uma pessoa aos prantos e perguntar como ela se sente, qual o pensamento dela sobre a tragédia?

“Ah... Eu me sinto como se UMA P%##@ DE UMA CHUVA tivesse destruído minha casa, matado minha família e acabado com tudo que eu demorei anos pra construir... Mas estou bem, obrigado por perguntar...”



Esse tipo de reportagem procura explorar (ao máximo) a simpatia das pessoas. Eles mostram o máximo possível de desgraça, tristeza, gente chorando e pessoas gritando inconformadas. Com tamanha infelicidade os telespectadores se compadecem e ficam preocupados com a situação dos pobres coitados.

E se eles estão preocupados eles então começam a acompanhar qualquer notícia sobre o acidente/catástrofe/matança/seja-lá-o-que-for. E isso leva ao aumento da audiência, criando um ciclo vicioso: a TV mostra desgraça, as pessoas assistem e querem mais, e aí a TV passa mais desgraça e por aí vai.

Eu vejo um problema nisso tudo. Talvez eu seja muito estranho, ou tenha um grave problema de desvio de conduta, mas acontece que eu não gosto de tristeza. É, eu sei que parece mentira, mas a desgraça não me atrai e eu não curto muito a idéia de ficar deprimido com algo.

Quando eu ligo a TV ou vou ler uma notícia, eu não quero que uma enxurrada de depressão caia sobre mim. Eu quero dar uma descansada, e ficar triste não se enquadra em “descansar”. Não que eu não queira saber sobre o que está acontecendo no mundo. Eu QUERO! Mas parece que as únicas notícias que importam são as que têm a ver com pesar.

“Ah! Mas aí você está se fechando para o que acontece no mundo!”

Péra aí um pouco! Não foi isso que eu quis dizer. Não vejo problema em noticiarem que, por exemplo, um cara foi assassinado num jogo de futebol. O problema que eu vejo é a cobertura quase cinematográfica que a mídia faz desse tipo de coisa, enquanto notícias mais leves recebem bem menos atenção. Assim parece que no mundo só está acontecendo merda!


O exemplo mais recente é o caso do maluco que entrou na escola e atirou em todo mundo. Não acho ruim sair uma matéria do tipo “Mano doido distribui pipoco em escola do Rio”, explicando o que aconteceu, que teve mortes e que prenderam/mataram o bandido.

Mas o que eu acho ruim é a mídia dedicar metade de sua programação em documentar cada nuance do caso. Ir à casa do assassino, entrevistar a família/amigos dele, fazer toda uma checagem de background do cara, etc, é algo totalmente desnecessário. Digo isso por que não faz sentido dar atenção a um criminoso.

Na mente perturbada de um psicótico desses, o que ele mais quer é atenção. A pior coisa que se poderia fazer a um narcisista desses seria jogá-lo no esquecimento e ignorá-lo. Mas ao invés disso todos os holofotes são postos sobre ele, e dedicam seu tempo a “desvendar” ele. Quem será que sai ganhando com isso? Já até vejo daqui a uns anos alguém fazendo um filme sobre ele.

E isso quando não partem de informações incompletas e/ou suposições exageradas e acabam distorcendo a verdade, criando casos como o clássico “O cara jogava muito video-game violento e por isso ficou maluquinho e matou geral” ou “Ele é ateu e por isso cometeu esses crimes hediondos”.

E não é só o foco nos criminosos que eu acho ruim. Também desprezo o excesso de atenção que dedicam ao sofrimento das vítimas e afins.

O maior exemplo que lembro é o caso Nardoni.


Admito que seja trágico o assassinato a sangue frio de uma inocente criança. Mas de novo houve uma cobertura tão grande desse caso que eu tinha medo de ligar a TV e me deparar com mais uma reconstituição do crime.

E aí chegou o momento que mais me causou indigestão: a cobertura do enterro da menina.

Primeiro por que naturalmente eu já acho enterro um dos costumes mais sem propósito da humanidade. Porém sempre respeitei o significado que ele tem pra algumas pessoas, o da “despedida” do ente que se foi.

Mas aí a imprensa decidiu tornar o enterro da coitada um evento público televisionado, levando milhares de pessoas ao local para “prestigiar” o momento e tirando o pouco de dignidade que este merecia.

Vamos deixar bem claro que se você vai ao enterro de um desconhecido, você não é bondoso nem nada. Você é doente. Sério! Procura ajuda!

Toda a proposta de um velório é ser algo triste, melancólico, e, principalmente, um momento para OS PRÓXIMOS do falecido poderem prestar sua homenagem. Se você invade esse ritual privado, você ta sendo atraído pela tristeza. Se isso não é um indicativo de distúrbio, eu não sei o que é!


E pra finalizar, irei sair desse círculo dos assassinatos e afins, e vou para um assunto mais geral.


Existem certos tipos de “caras” (não ouso chamar eles nem de jornalistas nem de repórteres – fazê-lo seria uma afronta aos profissionais do meio) que tem um jeito de divulgar as noticias que me dá ânsia. Basicamente eles pegam qualquer tipo de problema e colocam a culpa deles em qualquer um ou qualquer coisa.

Eles apelam pra um sentimento diferente. Ao invés da empatia/simpatia, eles se comunicam com a sua raiva, que eu não consigo decidir se é pior ou não. Deve ser um empate.

Eles conseguem transformar qualquer problema numa caça as bruxas. Culpe o governo pelas chuvas excessivas. Bote a culpa dos assassinatos no ateísmo, e por aí vai.

Eu tenho a impressão de que quando eu assisto esses programas eu devia me sentir culpado por todos os problemas do mundo, ao mesmo tempo em que eu devia culpar todos ao meu redor pelas mesmas coisas.

E algo que me faça me sentir tão confuso não é uma boa maneira de passar meu tempo, muito menos um bom alvo para minha atenção.



Pra fechar o texto, uma citação ou sei lá o que:

O bem prevalece sobre o mal, isso é certo. O problema é o que o mal recebe mais atenção.



Tenham um bom dia!

9 comentários:

  1. Concordo completamente com você Kaum. Eu também odeio sensacionalismo. E sabe qual é a pior parte de tudo isso (como no caso do cara do Rio)? Eles explicam passo a passo do que o cara o fez! Sério, essa gente tem problema? Uma merda dessas acontece e eles ainda ensinam o Brasil inteiro a se preparar pra fazer a mesma coisa? Passaram bem 3 meses falando da "estratégia" dos Nardoni e depois aparece um outro maluco que fez a mesma coisa e eles ainda se perguntam por que essa "onda" de assassinatos continua? É foda.

    Ótimo texto cara. Merece um PERFECT ^^

    ResponderExcluir
  2. Eu acho que divulgar tão abertamente a estratégia de crimes é muito errado. Dá até pra inspirar alguém que quer fazer a mesma coisa.

    Mas também, qualquer coisa serve pra inspirar esse tipo de maluco...

    Só acho que devia ter menos espaço na mídia esse tipo de coisa.

    ResponderExcluir
  3. Acho muit ridículo esse tal de sensacionalismo. Coisa típica da Globo, por sinal.

    ResponderExcluir
  4. Nada.
    Rainha do sensacionalismo é a Record

    ResponderExcluir
  5. Acho que o pior é quando ficam enchendo o saco de uma ou mais famílias com perguntas inúteis e expondo na mídia até quem não tem nada a ver com o caso.

    E falando em Record, parece que hoje mais uma vez irão falar (ou já falaram, não sei) sobre os possíveis males que "jogos violentos" podem causar. Será que vem mais sensacionalismo aí?

    ResponderExcluir
  6. ótimo texto Kaum,esse vai pra sessão dos melhores do blog.

    cara eu também acho que a Record é a rainha do sensacionalismo,seguida na rabeira pela Band.O que eu mais odeio no jornalismo é quando eles falam mal de outras emissoras.O que a Record tá fazendo muito ultimamente.Nã tem o que passar ai fica falando que a Globo faz isso,faz aquilo...isso é ODIOSO!!!
    PIOR DO QUE FAZER COISA ERRADA,É FICAR MOSTRANDO ISSO COM MATÉRIAS QUE PASSAM DE 1H DE DURAÇÃO FÁCIL NO SEU J0RNAL!
    cara,eu odeio televisão,não sei como eu pude sonhar em trabalhar nela um dia.
    por mim eu só teria TV pelo video-game.

    ResponderExcluir
  7. Acho que a Band só ganha da Record por que ela tá com o Datena. E ter ele no seu "elenco" confere +10 pontos de sensacionalismo.

    Se não fosse a TV fechada (desenhos+filmes), minha TV só iria servir pra ligar o video game mesmo.

    ResponderExcluir
  8. Eu sou ateu e gamer, então eu sou um monstro, eu bebo sangue de criancinhas, matei a minha mãe e botei fogo em um hospital, tudo em um dia.

    ALERTA DE SARCASMO ATIVADA

    ResponderExcluir
  9. Parabéns pela redação. Muito lúcida, informacional e filosófica.
    Uma descrição simples e impecável deste sentimento de apologia ao desbelo, tão predominante, e impregnante, em nossa sociedade.
    Uma abordagem tão atual e, como deveria ser, atemporal.
    Hoje, a bola da vez são as 240 mortes em Santa Maria/RS.

    ResponderExcluir